a palavra #32
coma sozinha um pacote de sal. leve o tempo que isso pede. perceba os efeitos.
Pra começar, um textão
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. Esse terceiro inicio, que aposto ser o que será compartilhado-enviado a voce. voce mesmo. Já escrevo assim sabendo que tem alguém que lê, e isso muda todo dito. Os textos que comecei e desisti falavam sobre floresta, caminho, sobre numa coletividade de mata encontrar jeito e cantinho pra se encasular, pra viver uma metamorfose, algo tão intimo mas que toda floresta testemunha. Acabei de fazer aniversário e isso mais do que me dar sensação de que rompi a membrana de um casulo tem me dado a sensação de que terminei de tecer seu entorno e agora estou dentro dentro de mim. Uma película fina faz com que o fora nao me toque tanto, pra que eu consiga me transformar agora. Era disso que eu tava falando nos textos que desisti. Confio mais nesse que nasce agora porque ele nasce mais vivo, gosto quando escrevo assim diretamente como penso, sem muita busca ortográfica ou de estilo de como comunicar uma reflexão, gosto do texto cru, quem me lê que se de o trabalho de cozinhar, fritar, comer cru mesmo, ou mastigar e cuspir fora. Me aproximo da percepção de que minha escrita é algo que se oferece cru, em potencial, essa escrita que é tão minha mas absolutamente nossa. Quando escrevo no diário é de outro jeito. Voce tambem?
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. Essa coragem de dividir a imensidão de uma intimidade cotidiana. Usei o final do potinho de sal, acho que pela terceira ou quarta vez. Peguei o pacote pra enche-lo de novo. Banal. Não tão banal porque houve alguém que um dia escreveu e eu li que:
pra conhecer alguém, coma um pacote todo de sal com essa pessoa. Leva tempo. Já fiz isso com minha mãe e meu pai, com minha irmã tambem, com minha avó também. O sal que tempera a comida cotidiana diz de uma intimidade diferente. Fiz isso feliz com meu namorado, percebendo que fazia. Com todas essas pessoas foram mais de um pacote de sal. Mãe, pai, irmã, vó, namorado.
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. A percepção de que sigo comendo meu primeiro pacote de sal comigo. É a primeira vez que moro sozinha. Já faz quase um ano e quando é que uma primeira vez acaba? Ainda tem bastante sal no pacote. Ainda bem que alguém escreveu e eu li, que pra conhecer: comer um pacote de sal junto. Comer um pacote de sal comigo tem sido algo que sempre que lembro de reparar vibro e tenho calafrios. Essa prática poética existencial
coma sozinha um pacote de sal. leve o tempo que isso pede. perceba os efeitos.
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. A loucura que é encontrar a sensação de que estar só é estar em companhia. Escrevo diferente num diário, sou outra dentro de um casulo, não porque não tem ninguém, mas porque tem minha companhia sendo dividida comigo e não com algum outro. Companhia me parece algo fixo. Não tem como nao ter, tem como nao perceber. Meio como a gravidade mesmo. Confesso que tantas vezes eu quis estar com outras pessoas não porque queria estar com elas, mas porque não queria estar comigo. Assumo inteiramente, as vezes eu nem quero o outro mas me quero menos ainda. A única forma que encontrava de não me acompanhar era acompanhando os outros.
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. Escrevo pra ser mais uma pessoa que decide por força na escrita, pedir força a escrita, acreditar na escrita. Escrevo porque assim me acompanho mais de perto. Mais crua se mim mesma. Escrevo porque é importante registrar que num mesmo pacote de sal eu já fui tantas. E continuo a mesma, tão diversa em mim. Escrevo porque sei que se isso passa, eu perco e tem coisa que eu nao quero perder como essa, perceber as fases da transformação que encasular me pede.
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. Pra convidar pessoas a escreverem e provarem do próprio sal de si. Encontrarem um jeito muito próprio de escrita que não é esse que se destina a alguém ou alguma função, que nao a de se conhecer mais fundo. A escrita é o sal que uso pra me conhecer e que convido jornadas de autoconhecimento.
Enquanto a água com sal ferve no fogão, escrevo. Em março início a condução da 6ª turma do Intimar a Escrita, um grupo de escrita criativo terapeutica que desde 2023 nutro. A intenção é de oferecermos semanalmente tempo, espaço e atenção - escuta. Ter um encontro marcado. Ir a este encontro que convida a intimidade - companhia. Por isso tempo, espaço, atenção, escuta, repetição. Encontro. Encontros de aposta no desconhecimento de si, escrever pra se desconhecer. Pra nutrir o que percorre em fluxo, pra alimentar imaginação, devaneio. Pra reparar o que a escrita representa da gente. Também o que ela apresenta da gente e principalmente o que ela realiza em nós. Essa edição será online, terças as 19h. Vou deixar mais informações a seguir e espero quem desejar aprofundar na própria companhia de si. Experimentar fazer casulo nessa floresta, com minha guiança e fé na palavra.
Intimar a Escrita - 6ª Turma - Online
Início em 17 de março. 5 terças feiras, das 19h às 20h30
A cada encontro, são oferecidas narrativas e imagens como ferramentas de convocação para que o íntimo se manifeste em palavra-texto.
Valores: R$400 (integral) - R$360 (até 28/02) - R$350 (ex-alunas)
Pagamento pode ser feito em 1x no valor total ou em 2x sendo metade no ato da inscrição e outra metade em Abril
VAGAS LIMITADAS
Inté
Obrigada voce que me lê por aqui, a atenção é uma joia rara e preciosa, um presente, agradeço mesmo por oferecer a sua as minhas palavras.







Adorei como o texto transforma algo simples, como comer sal, em um ritual de autoconhecimento. Me deu vontade de escrever só pra me acompanhar também!